O deputado Roderich Kiesewetter, membro da Comissão de Negócios Estrangeiros do Bundestag (câmara baixa do parlamento alemão), escreveu na rede social X que tal decisão restringe a capacidade de Israel de exercer o seu “direito à autodefesa” e que a Alemanha, como país amigo, deve confiar que Israel “utilizará as armas em conformidade com o direito internacional”.
Com a decisão de hoje, o Governo alemão “cede à pressão da turba antissemita nas ruas, que também ameaça a vida judaica na Alemanha, e curva-se à guerra cognitiva da propaganda implacável do [movimento islamita palestiniano] Hamas”, sustentou Kiesewetter, acrescentando que a decisão “não ajuda uma única criança em Gaza”.
“A partir de agora, Israel fará o trabalho sujo por nós, mas sem as armas alemãs”, lamentou também na rede social X o presidente da juventude da União Democrata-Cristã (CDU), Johannes Winkel, referindo-se à reação de Merz após os ataques israelitas ao programa nuclear iraniano, quando agradeceu a Telavive por se ocupar do “trabalho sujo” do mundo.
Segundo o tabloide conservador Bild, a decisão de hoje foi recebida com estupefação pela União Social Cristã (CSU), a irmã bávara da CDU, que faz parte da coligação governamental e é particularmente próxima de Israel.
De acordo com fontes da CSU citadas pelo Bild, a medida não foi acordada com o partido e os seus membros não tinham conhecimento dela.
Já o porta-voz para os Negócios Estrangeiros do grupo parlamentar misto CDU/CSU, Jürgen Hardt, disse ao mesmo jornal que a decisão do Governo era hoje “inevitável”, após Merz e o chefe da diplomacia, Johann Wadephul, terem durante meses transmitido ao Governo israelita as suas preocupações sem obterem resposta.
“Com isto, queremos indicar claramente a Israel que consideramos as suas ações na Faixa de Gaza uma ameaça à sua posição no mundo e à sua segurança”, afirmou.
Berlim comunicou a decisão depois de o gabinete de segurança do Governo israelita ter anunciado a aprovação de um plano para a ocupação total da Faixa de Gaza, que começará pela cidade de Gaza, situada no norte da Faixa de Gaza e com cerca de um milhão de habitantes, metade da população do enclave.
Os habitantes da cidade de Gaza serão deslocados para sul até 07 de outubro, data do segundo aniversário do ataque do Hamas a Israel, que fez cerca de 1.200 mortos e 251 reféns e desencadeou no mesmo dia a guerra israelita ainda em curso no território palestiniano.
Até agora, bombardeamentos e ofensivas terrestres fizeram mais de 61.000 mortos e 150.000 feridos, na maioria civis, além de milhares soterrados sob os escombros, segundo os mais recentes dados das autoridades locais, considerados pela ONU fidedignos.
Prosseguem também diariamente as mortes por fome, causadas pelo bloqueio de ajuda humanitária durante mais de dois meses, seguido da proibição israelita de entrada no território de agências humanitárias da ONU e organizações não-governamentais (ONG).
Alguns mantimentos estão desde então a entrar a conta-gotas e a ser distribuídos em pontos considerados “seguros” pelo Exército, que regularmente abre fogo sobre civis palestinianos desesperados para obter comida, fazendo milhares de mortos e feridos.
Há muito que a ONU declarou o território mergulhado numa grave crise humanitária, com mais de 2,1 milhões de pessoas numa “situação de fome catastrófica” e “o mais elevado número de vítimas alguma vez registado” pela organização em estudos sobre segurança alimentar no mundo.
Já no final de 2024, uma comissão especial da ONU tinha acusado Israel de genocídio em Gaza e de estar a usar a fome como arma de guerra – acusação logo refutada pelo Governo israelita, mas sem apresentar quaisquer argumentos.
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