O caso remonta a uma entrevista que Duda concedeu à televisão estatal polaca, na qual afirmou não ter ficado surpreendido com o facto de a guarda fronteiriça ter utilizado um ‘slogan’ que remonta à ocupação nazi – “só os porcos se sentam no cinema” – a propósito do filme ‘Green Border – Zona de Exclusão’, lançado em 2023 por Holland e que foi exibido nas salas de cinema portuguesas.
O filme retrata as atividades das autoridades polacas na fronteira com a Bielorrússia, que na altura enfrentava uma forte pressão de imigração ilegal proveniente de países asiáticos e africanos, numa alegada política deliberada de Minsk para desestabilizar o espaço europeu e que se transformou num drama humanitário.
Na audiência de hoje, o advogado do Centro de Monitorização do Comportamento Racista e Xenófobo afirmou que “o processo não diz respeito apenas a uma frase”, mas também à expectativa dos cidadãos, que “têm o direito de esperar um comportamento respeitoso por parte daqueles que exercem o poder em seu nome”.
O filme “Green Border – Zona de Exclusão”, da aclamada realizadora polaca de 76 anos, estreou em setembro de 2023 depois de ter ganho o Prémio do Júri no Festival de Cinema de Veneza e aborda o tratamento dado aos imigrantes na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia.
A obra apresenta as respostas de políticos, forças armadas, refugiados, ativistas e residentes da região fronteiriça durante a crise migratória que estava no seu auge, numa tentativa, segundo a autora, de “dar voz a quem não a tem” e mostrar “como as escolhas são difíceis”
Após o seu lançamento, em vésperas das mais tensas eleições legislativas na Polónia nos últimos anos, o filme esteve no centro de uma polémica política, levando Duda, Presidente da Polónia até agosto passado, a criticá-lo mesmo sem o ver, argumentando que, segundo tinha ouvido,”difamava as autoridades polacas” e retratava-as “quase como sádicas”.
O então ministro da Justiça, Zbigniew Ziobro, do Governo ultraconservador e nacionalista do partido Lei e Justiça (PiS), comparou publicamente a cineasta aos “propagandistas do III Reich”, que “produziram filmes a retratar os polacos como bandidos e assassinos”, acrescentando que “hoje existe Agnieszka Holland”.
A autora respondeu a Ziobro afirmando que os seus comentários constituíam uma difamação e violavam os seus direitos, e avisou que se defenderia judicialmente.
Agnieszka Holland foi nomeada três vezes para os Óscares, pelos filmes ‘Europa, Europa’ (1990), ‘Fuga na Escuridão’ (2003) e, já este ano, pelo filme biográfico ‘Franz’ sobre o escritor Kafka.
Logo após o lançamento de ‘Green Border – Zona de Exclusão’, o partido PiS foi afastado do Governo, após oito anos consecutivos no poder, por uma coligação pós-eleitoral liderada pelo liberal europeísta Donald Tusk, numa campanha marcada pela agressividade, insultos e acusações cruzadas, num país fortemente dividido em que a migração foi um dos temas principais.
Leia Também: Polónia admite intercetar avião de Putin se este sobrevoar espaço aéreo