Dia de Todos os Santos: “A importância dos rituais do luto”

“O dia 1 de novembro, o Dia de Todos os Santos, é celebrado em Portugal desde o ano de 835, com o Papa Gregório IV, sempre com o objetivo de homenagear as pessoas perdidas e recordar que não foram, de todo, esquecidas por quem ficou a viver na sua ausência. Mais tarde, para nós, sociedade portuguesa, este dia ganhou outra relação com a morte, o luto e a perda, no ano de 1755, aquando do grande terramoto de Lisboa, que destruiu grande parte da capital, enquanto centenas de pessoas assistiam às missas do mencionado Dia de Todos os Santos.

 

E é neste dia que, enquanto sociedade, praticamos o ritual do luto que define a cultura portuguesa (durante este dia e ao longo de todo o ano), nomeadamente ir ao cemitério, limpar e cuidar da campa, acender velas e colocar flores e rezar, seja individualmente ou em família. 

E, por isso, surge a questão: qual é a função dos rituais do luto?

Segundo a Psicologia do Luto, estes apresentam duas funções bastante distintas: por um lado, permitem homenagear a pessoa perdida e mantê-la simbolicamente presente, no nosso dia a dia e história de vida; por outro, funcionam como um lembrete da ausência da pessoa perdida e, por isso, promovem a aceitação da realidade da perda.

Que rituais se seguem em Portugal?

Pensando no exemplo do cemitério, algumas pessoas sentem que, ao limpar a campa, estão a cuidar simbolicamente da pessoa perdida. A ida ao cemitério pode ser vista como uma visita à mesma, provando que não é esquecida. No entanto, os rituais do luto, tendo em conta o seu objetivo primordial (sentir-se próximo da pessoa perdida e mantê-la “viva” na nossa vida), ultrapassam o cemitério.

Vejamos que, para algumas pessoas, faz mais sentido criar um livro de memórias, que integra fotografias, pertences de quem perdemos (como um lenço ou relógio), poemas ou cartas. A pessoa em luto pode aceder a esta caixa sozinha, em silêncio, ou, por oposição, partilhar estes elementos com a família, enquanto cada pessoa conta uma memória ou história com a pessoa perdida (ou seja, em família, homenagear a vida de quem já não está). 

Outro ritual pode ser plantar uma árvore no jardim ou num sítio que fosse especial para quem perdemos; enquanto para outro é importante usar uma peça de roupa dessa pessoa para nos sentirmos mais aconchegados e, mais uma vez, um pouco mais “próximos” (emocionalmente e simbolicamente, claro).

Torna-se, assim, importante recordar que a Psicologia do Luto aponta outras ferramentas que devem acompanhar os rituais do luto, como a escrita terapêutica, com a escrita de uma carta de despedida ou uma a pedir desculpa; ou, ainda, a leitura, tendencialmente de obras potenciadoras de um processo de luto (mais saudável), como ‘A Mensagem das Lágrimas: Guia para Lidar com o Luto’. 

O pior dia do luto não é o da morte

Apesar de a morte integrar o ciclo da vida do ser humano, a perda pode ser a experiência emocionalmente mais violenta que enfrentamos, afetando todo o bem-estar psicológico. 

O pior dia do luto não é o da morte, mas sim todos os dias sem a pessoa perdida e, não raras vezes, os “dias simbólicos” como o primeiro de novembro, o dia de aniversário da pessoa perdida, a data que assinala a sua morte ou o diagnóstico da doença que roubou a sua vida. Ao procurar ajuda especializada, encontra-se um espaço seguro, totalmente ausente de julgamento ou crítica, no qual se liberta a dor, identifica-se rituais do luto e outras ferramentas saudáveis e atenuadoras do mal-estar psicológico e, principalmente, onde nos sentimos menos sozinhos. A dor é válida e é digna de ser escutada.”

Fonte: www.noticiasaominuto.com

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