Um dia após a RTP confirmar que vai participar no Festival Eurovisão da Canção em 2026, apesar da presença de Israel, foi criada uma petição que exige a “retirada imediata” de Portugal no concurso europeu. Pelas 23h00, a petição já contava com mais de 700 assinaturas.
Na petição, intitulada “Pela retirada imediata de Portugal do Festival Eurovisão da Canção e enquanto Israel participar”, os cidadãos começaram por manifestar o seu “profundo desacordo e indignação relativamente à posição da RTP.
“Esta indignação é agravada pelo facto de a representação portuguesa ter votado a favor da participação de Israel, colocando Portugal do lado errado da História”, atiram, considerando que “esta postura é inaceitável perante a contínua catástrofe humanitária e ofensiva militar na Faixa de Gaza, e perante os escândalos de manipulação de voto que mancharam a edição de 2025 em Basileia”.
Para os peticionários, a “integridade do concurso foi destruída porque o palco foi capturado por interesses políticos”, existindo “provas factuais, visíveis na edição de 2025, de que o televoto foi instrumentalizado por campanhas organizadas pelo Estado israelita”.
Os signatários frisam, assim, que a “RTP não pode submeter os artistas portugueses a um concurso onde o vencedor é decidido por quem investe mais em propaganda para branquear a imagem de um conflito armado”.
A petição recordou a atuação de Portugal na Eurovisão em 1997, quando o grupo “Os Amigos” foi “proibido pela organização de subir ao palco com cravos vermelhos na lapela”, por ser considerada uma “mensagem política inaceitável”.
“É uma afronta aos portugueses que a mesma organização que censurou os nossos cravos da paz feche agora os olhos a um Estado responsável por uma grave crise humanitária, permitindo-lhe inclusivamente manipular as regras do concurso para normalizar a sua atuação militar”, lê-se.
Defendem, também, que “existe um dever ético de não aplicar dinheiros públicos num evento que se transformou numa plataforma de limpeza de imagem através da arte de graves violações de Direitos Humanos” e que a “missão da RTP é promover a cultura e a paz, não normalizar a guerra”.
Assim, consideraram que, “ao votar favoravelmente à participação de Israel, a RTP deixou de ser apenas uma participante passiva para se tornar cúmplice ativa na normalização do conflito”.
Neste sentido, a petição exige que, “face à gravidade da situação humanitária, à manipulação comprovada dos resultados como ferramenta de propaganda e à vergonhosa posição de apoio manifestada pelo voto português”, a RTP “anuncie a não-participação de Portugal na Eurovisão 2026”.
“Portugal deve corrigir o erro do seu voto e juntar-se ao bloco de países, como a Espanha, que se recusam a branquear a situação. É imperativo defender a dignidade dos artistas nacionais, o respeito pelo Direito Internacional e a génese do próprio festival. Criada em 1956 para promover a paz e a união entre os povos num pós-guerra, a Eurovisão não pode servir de palco para normalizar a guerra”, concluem os peticionários.
RTP confirma participação de Portugal na Eurovisão
A RTP anunciou, na quinta-feira, que “votou a favor da alteração das regras” do Festival Eurovisão da Canção, que previam a participação de Israel, e irá participar na edição do próximo ano.
Num comunicado, enviado às redações, a RTP começou por referir que a Assembleia-Geral da União Europeia de Radiodifusão (UER) votou esta tarde “a alteração às regras de votação no Festival Eurovisão da Canção” no “sentido de reforçar a confiança e a transparência e garantir a neutralidade do evento”.
“A RTP, assim como a larga maioria de países membros, votou a favor da alteração das regras que permitem que os países participem na próxima edição do Festival Eurovisão da Canção com um maior grau de confiança nos resultados das votações”, lê-se.
Assim, “com base nesta decisão da UER, detentora do Festival Eurovisão da Canção, a RTP vai participar na edição do Festival Eurovisão da Canção 2026, em Viena de Áustria”.

Israel vai (mesmo) participar na Eurovisão. E já há países a boicotar
A Assembleia-Geral da União Europeia de Radiodifusão (UER) confirmou, esta quinta-feira, que Israel irá participar na Eurovisão em 2026. Espanha, Países Baixos, Irlanda e Eslovénia já anunciaram que não irão participar na competição.
Márcia Guímaro Rodrigues | 17:26 – 04/12/2025
Espanha, Países Baixos, Irlanda e Eslovénia já anunciaram boicote
Na quinta-feira, a RTVE cumpriu a ameaça que havia feito há meses e anunciou a “saída de Espanha do Festival Eurovisão da Canção”.
Também a estação pública dos Países Baixos, a AVROTROS, já anunciou que “não participará no Festival Eurovisão da Canção em 2026”.
“Considerando todos os aspetos, a AVROTROS conclui que a participação nas circunstâncias atuais é incompatível com os valores públicos que nos são essenciais”, anunciou a estação no seu site.
A RTE, estação pública da Irlanda, já veio anunciar que “não participará nem transmitirá o Festival Eurovisão da Canção do próximo ano, depois de a União Europeia de Radiodifusão (UER), organizadora do evento, ter confirmado hoje que Israel poderá participar”.
Por parte da Eslovénia, a RTVSLO revelou que “não participará no Festival Eurovisão da Canção”.

Portugal na Eurovisão? “RTP teve medo de fazer a coisa certa”
Salvador Sobral, vencedor da Eurovisão em 2017, criticou a decisão da RTP de participar na próxima edição do concurso europeu, apesar da presença de Israel. “É a única televisão portuguesa que transmite um concerto por Gaza, mas, ao mesmo tempo, tem mais uma vez medo de fazer a coisa certa”, lamentou.
Márcia Guímaro Rodrigues | 16:14 – 05/12/2025