Construção reconhece limitações estruturais mas tarda em implementá-las

Criado pela Fundação Mestre Casais em parceria com a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas Nacional (AICCOPN), o Barómetro da Indústria da Construção em Portugal, relativo a 2025, conclui que “o setor sabe exatamente o que precisa de mudar, mas apenas um punhado de empresas está a fazê-lo”.

 

“Numa apreciação global, o barómetro revela que a indústria da construção portuguesa está a viver um momento económico favorável, mas estruturalmente tarda em melhorar. Há crescimento, há procura e há mercado. Mas persistem limitações estruturais, muito devido à pequena dimensão das empresas, à escassa internacionalização e à dificuldade de ultrapassar os desafios crónicos no que toca à mão-de-obra e à adoção de inovação, tecnologia e sustentabilidade, que continua tímida”, aponta.

O barómetro reuniu as respostas anónimas de 40 presidentes executivos (CEO) de empresas detentoras de alvarás das classes mais altas (6, 7, 8, 9), sobre três grandes áreas de análise: Contexto económico e políticas nacionais, evolução do setor da indústria da construção e práticas de inovação e sustentabilidade.

Do estudo resultou que a maioria das empresas participantes está sediada na região Norte (58%) e na Área Metropolitana de Lisboa (25%), tendo 85% menos de 250 trabalhadores e 62,5% faturando menos de 20 milhões de euros/ano, enquanto apenas 5% ultrapassam os 500 milhões de euros/ano.

Os indicadores apontam que o setor está a crescer, “mas com base frágil”, com 88% das empresas a prever cumprir ou superar os objetivos anuais e a totalidade a antecipar crescer em 2025, sendo que 30% prevê incrementos superiores a 15%. O crescimento é liderado pelo segmento residencial (39%), seguido de outros edifícios (31%) e infraestruturas (30%).

Ou seja, “o setor vive um momento de forte dinâmica económica, mas esta assenta sobretudo na procura imediata (habitação e mercado privado), não em ganhos estruturais de produtividade”.

O barómetro evidencia ainda que os CEO “distinguem claramente entre o bom momento do mercado e a fraca qualidade do enquadramento político-institucional”, com a confiança na economia a descer (de 6,60 em 10 em 2024 para 6,35 em 2025), apenas 43% a apontar investimento público adequado em infraestruturas e 50% a discordar das políticas públicas de habitação.

Outra das conclusões é que o dinamismo atual do setor “não decorre de estratégia pública, mas da pressão do mercado privado, sobretudo habitacional”: 42% dos inquiridos identifica os donos de obra privados como principais motores, tendo o Estado (35%) e autarquias (23%) um peso inferior.

No que se refere à internacionalização, o setor continua “fortemente doméstico e com baixa diversificação geográfica”, com mais de metade (60%) das empresas a não operar em mercados internacionais e apenas 10% a estar em quatro ou mais mercados, dividindo-se as prioridades externas entre a União Europeia (31%) e África (31%).

Os maiores bloqueios estruturais apontados pelos inquiridos são a escassez de mão-de-obra qualificada (47%) e o envelhecimento da força de trabalho (41%), de onde resulta que “o principal risco ao crescimento não é a procura, é a incapacidade de executar por falta de recursos humanos”.

Quando questionados sobre os desafios da produtividade, os CEO identificam sobretudo a inovação em métodos e materiais (39%), a formação (29%) e a digitalização (15%).

Contudo, na prática, apenas 3% a 5% das empresas adotou iniciativas em áreas como a inteligência artificial, industrialização ou sustentabilidade.

Do barómetro hoje divulgado resulta ainda que o setor português da construção é muito fragmentado e de pequena dimensão, já que apesar de as inquiridas serem empresas com alvarás mais elevados, 85% tem menos de 250 trabalhadores e 62,5% fatura menos de 20 milhões de euros por ano.

“Mesmo no topo da cadeia, o setor é composto maioritariamente por empresas pequenas, o que explica a baixa capacidade de investir em I&D [Investigação & Desenvolvimento], digitalização e industrialização”, conclui o estudo.

Relativamente à sustentabilidade, “ainda é tratada como requisito reputacional e não como modelo operativo”: 60% das empresas tem práticas parciais a neste nível, mas apenas 5% tem sustentabilidade totalmente integrada, estando a ESG (critérios ambientais, sociais e de governança corporativa) maioritariamente prevista, não efetivamente executada.

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Fonte: www.noticiasaominuto.com

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