O baterista português Marito Marques reuniu músicos de diferentes nacionalidades num concerto de improvisação em Toronto, procurando aproximar a comunidade portuguesa de novas linguagens musicais e promover o diálogo entre culturas.
O espetáculo, intitulado “Circuito”, realizou-se na sexta-feira à noite, na Casa do Alentejo de Toronto, com a participação do acordeonista português João Frade, que acompanha Mariza nas digressões internacionais, e de músicos de diferentes origens culturais, num projeto assente na criação musical espontânea.
“A mensagem é a música, simplesmente, no seu estado puro”, afirmou à agência Lusa Marito Marques, explicando que o concerto foi construído sem partituras previamente definidas ou ensaios convencionais.
Natural de Arganil, no distrito de Coimbra, e radicado no Canadá há 14 anos, o baterista e compositor explicou que o projeto “Circuito” nasceu há cerca de um ano e procura explorar a liberdade criativa através da interação entre instrumentistas.
“Nunca fizemos propriamente ensaios, porque a música é completamente improvisada”, sublinhou, acrescentando que a presença de João Frade, seu amigo e colaborador de longa data, constituiu “uma cereja no topo do bolo”.
O concerto contou ainda com a participação do cantor de origem iraniana Shahriar Siavash, radicado em Toronto, e do músico colombiano Juan Carlos Medrano Magallanes, residente no Canadá, que apresentou sonoridades tradicionais através da flauta colombiana conhecida como gaita.
Para Marito Marques, a diversidade de nacionalidades presentes em palco refletiu a identidade multicultural da maior cidade canadiana.
“Essa multiculturalidade que existe em Toronto é o espelho da nossa cidade”, afirmou o músico.
A escolha da Casa do Alentejo para acolher o espetáculo representou também uma tentativa de reforçar a ligação do compositor à comunidade portuguesa de Toronto, da qual reconheceu ter estado relativamente afastado ao longo dos últimos anos.
“Este concerto foi também um passo em frente nesse sentido, mas trazendo uma música diferente, não aquela a que os portugueses estão completamente habituados”, explicou.
Apesar de desenvolver grande parte da carreira no mercado norte-americano, Marito Marques mantém uma relação profissional próxima com Portugal, onde iniciou o percurso artístico e colaborou com nomes como Carlos do Carmo e Sara Tavares.
Atualmente, continua envolvido na produção de discos de artistas portugueses, desenvolvendo projetos que incluem gravações realizadas tanto em Portugal como no Canadá.
“Estou a produzir muita música que vem de Portugal”, afirmou, manifestando a intenção de aprofundar os contactos com os músicos e as instituições da comunidade luso-canadiana.
O baterista integrou também o álbum Immersed, do músico e produtor Justin Gray, distinguido em 2026 com o Grammy de Melhor Álbum de Áudio Imersivo.
“O Grammy é um reconhecimento muito importante, e fiquei muito feliz na altura, como é óbvio, mas acho que não muda propriamente nada”, declarou.
Segundo o compositor, a distinção representa sobretudo um incentivo para continuar a desenvolver novos projetos e aprofundar a investigação musical.
Também João Frade, que mantém uma colaboração artística com Marito Marques há cerca de duas décadas, destacou a importância da experimentação e do cruzamento de linguagens musicais.
Para o músico, o acordeão permite explorar diferentes universos sonoros, sem abandonar as referências tradicionais portuguesas que marcaram a história do instrumento.
“Sou um bocado fã do lado exploratório do acordeão e de todos os instrumentos. É só uma questão de busca de linguagens e de cruzamentos de linguagens”, explicou à Lusa.
O músico destacou igualmente a configuração do espetáculo, que permitiu ao público acompanhar os artistas de diferentes posições, incluindo sentado no chão, de pé ou em circulação pelo espaço.
Na sua perspetiva, esta proximidade entre músicos e expectadores contribui para criar uma experiência artística distinta dos formatos convencionais de concerto.
Questionado sobre a crescente presença de instrumentistas portugueses nos circuitos internacionais, João Frade considerou que o desenvolvimento do ensino da música em Portugal e a maior circulação de informação contribuíram para ampliar a visibilidade dos artistas nacionais.
“O nosso país desenvolveu muito em termos académicos, novas universidades abriram, possibilidades imensas para os jovens estudarem música de forma talvez mais sólida”, observou.
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