António José Seguro fez, esta segunda-feira, o seu primeiro discurso nas comemorações do 5 de Outubro enquanto Presidente da República, tendo pedido uma nova cultura política de compromissos interpartidários para várias legislaturas, defendido a importância da estabilidade política e saudado a aproximação entre Governo PSD/CDS-PP e PS sobre o Orçamento do Estado.
Na cerimónia comemorativa do 116.º aniversário da implantação da República, na Praça do Município, em Lisboa, António José Seguro insistiu na necessidade de “soluções duradouras” e exortou os atores políticos a abandonarem “uma cultura de trincheiras” e adotarem “novos comportamentos”.
Se os visados pelo elogio concordaram com as palavras do Presidente, há quem tenha visto o apelo do chefe de Estado como “mais do mesmo”.
O PCP e o Bloco de Esquerda estão do lado dos que criticaram o elogio feito à união entre PSD e PS em matéria de Orçamento, enquanto o Livre considerou essencial excluir o Chega dos acordos de regime.
No final da cerimónia comemorativa da implantação da República, na Praça do Município, em Lisboa, o dirigente do PCP e vereador da Câmara da capital, João Ferreira, classificou como “contraditório” o discurso antes proferido pelo Presidente da República.
Na sua perspetiva, a situação presente “exige uma rutura com as políticas que estão a destruir o Serviço Nacional de Saúde, que provocaram a crise na habitação e que criaram um nível de desigualdades no país em que os ricos estão cada vez mais ricos e uma grande maioria da população enfrenta o aumento imparável do custo de vida”.
“Ora, não podemos pensar que atacar as causas dos problemas – como disse o Presidente da República que era necessário fazer – e encontrar as novas soluções para esses problemas de sempre se faz apelando a entendimentos entre aqueles que nos trouxeram a estes mesmos problemas. Isso não é possível”, declarou João Ferreira.
Para o dirigente do PCP, “é contraditório que o Presidente da República apele a um entendimento, nomeadamente entre o PS e o PSD, entendimento que está ele mesmo na origem dos problemas que hoje enfrentamos”.
Já a co-porta-voz e líder parlamentar do Livre, Isabel Mendes Lopes, disse que os entendimentos políticos “têm de ser feitos com base em valores” democráticos.
“Isso não se consegue com entendimentos com uma extrema-direita que não está interessada em assegurar valores como o da igualdade e, depois, se procura apoios no outro lado do Parlamento”, assinalou, numa alusão à linha seguida pelo executivo PSD/CDS.
Os entendimentos, advogou Isabel Mendes Lopes, “fazem-se com quem partilha o mesmo espaço democrático e o mesmo amor à República, mas não é isso que temos vindo a assistir por parte do Governo”.
Por sua vez, o coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, considerou que o Presidente da República avalizou uma linha política com a qual está em divergência e defendeu que “a única convergência que importa é a que melhora a vida das pessoas”.
“Uma convergência política ao centro, cada vez que se materializa, é uma porta aberta para a radicalização à direita”, advertiu.
José Manuel Pureza referiu depois que uma das promessas da República é a igualdade.
“Podemos inventar discursos sobre divergências e convergências, mas o que conta são as políticas de igualdade neste dia da República”, disse, antes de abordar “a segunda promessa” do atual Regime nascido em 5 de Outubro de 1910: “Uma vida em comum melhor para todos”.
“Mas, hoje, o que temos é uma vida melhor só para alguns, que acumulam lucros esmagadores e obscenos. Ser republicano é escolher políticas que vão ao encontro da maioria”, afirmou.
O secretário-geral do Partido Socialista, por sua vez, começou por elogiar a intervenção do Presidente da República e procurou acentuar a ideia de que o PS defende a estabilidade política e, como tal, nunca permitiria que o país caísse numa crise política na atual conjuntura.
Sobre a viabilização da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2027, declarou: “Temos garantias de que o Governo fará com o PS a revisão da Constituição”.
“A Constituição defende valores que hoje estamos a assinalar, nomeadamente o direito à habitação, o direito à saúde, o direito ao trabalho digno, o direito a uma condição de vida digna. A Constituição é uma tradução concreta de opções de vida em comum e da nossa casa comum que faz com que a nossa comunidade nacional queira continuar a ser uma democracia qualificada, a responder a condições de vida dignas para as pessoas”, realçou.
José Luís Carneiro mudou depois o tema e lançou um repto ao PSD, que, na semana passada, no Parlamento, anunciou um acordo com o Chega para a revisão da lei do arrendamento.
“Exijo ao Governo que deixar cair na Assembleia da República o acordo que fez com o Chega. Um acordo que lança particularmente os mais idosos e os mais jovens em condições de grave precariedade quanto às rendas e quanto à segurança de ter uma casa para realizar o seu projeto de vida futuro. Essa é uma exigência fundamental”, salientou.
Já o Chega criticou o discurso de António José Seguro, classificando-o como “mais do mesmo”, por apelar à união de PSD e PS e “mandar recados” ao Chega.
“O discurso acabou com os recados do costume, falar-se sobre movimentos ou partidos mais extremistas, etc, no fundo é mais do mesmo, porque quando falamos em unir os partidos com o objetivo do bem da população, acabamos a falar sempre dos mesmos dois partidos, que é o PS e o PSD”, afirmou o deputado do Chega Rui Paulo Sousa, em declarações aos jornalistas no final da cerimónia de comemoração do 116.º aniversário da Implantação da República, na Praça do Município, em Lisboa.
Apontando que PSD e PS “já se uniram” para aprovar o próximo Orçamento do Estado, Rui Paulo Sousa acrescentou que esperava que “pelo menos por uma vez, quando falassem numa união dos partidos, falassem da união dos três principais partidos, e não falassem no fundo sempre os dois do mesmo costume”.
“Somos sempre afastados quando é a altura da decisão, porque quando falamos em tentar medidas alternativas, medidas que fogem do habitual dos últimos 50 anos, estamos a falar do Chega, que é o único partido a ter apresentado medidas realmente totalmente diferentes do habitual”, considerou.
Quanto aos “recados” do Presidente da República, Rui Paulo Sousa apontou que quando “começa a falar de entendimentos e depois acaba por falar em extremismos e em partidos que não estão bem de acordo com a democracia”, acaba por afastar o Chega.
A IL criticou o discurso do Presidente da República nas comemorações da implantação da República, por defender a necessidade de reformas, mas elogiar um entendimento entre o PSD e o PS relativamente ao próximo Orçamento do Estado.
“Foi um discurso interessante em que o senhor Presidente da República diz aquilo que a Iniciativa Liberal anda a dizer há anos, que é preciso avançar, é preciso reformar, tem que se ir à raiz dos problemas para que sejam resolvidos, não podemos andar com pensos rápidos”, começou por afirmar aos jornalistas a deputada da IL Angélique da Teresa, no final da cerimónia de comemoração do 116.º aniversário da implantação da República, na Praça do Município, em Lisboa.
A deputada liberal acrescentou ainda que espera “que o primeiro-ministro tenha ouvido com toda a atenção” o discurso de António José Seguro e “que tenha levado o recado para o Governo, para que deixe de ter medidas propagandistas e que, de facto, comece a resolver os problemas do país”.
“Pena foi, depois, no discurso do senhor Presidente da República, termos ouvido o contrário, que é elogiar o entendimento entre o PS e o PSD relativamente a um orçamento que nem sequer é conhecido e, portanto, assim, efetivamente, não vamos conseguir reformar nada”, ressalvou.
O PSD, por fim, elogiou o discurso de Seguro, mas recusou o repto do PS para que rompa o seu acordo com o Chega para rever a lei do arrendamento.
“Também algo com o qual o PSD se revê bastante, que é a dimensão de diálogo. Dou exemplos muito concretos: na semana passada, por exemplo, tivemos o PS a anunciar que irá abster-se na votação do Orçamento de Estado para o próximo ano; por outro lado, numa matéria setorial muito importante, no arrendamento, foi possível um entendimento com o Chega para a sua viabilização”, referiu o vice-presidente da bancada social-democrata, Alexandre Poço.
Confrontado com o repto do PS para que o PSD acabe com esse acordo com o Chega para a revisão da lei do arrendamento, Alexandre Poço contrapôs que essa posição do secretário-geral socialista, José Luís Carneiro, é contraditória com o teor do discurso hoje proferido pelo chefe de Estado.
“O PSD continuará a negociar com os partidos que, em cada momento, estão disponíveis para aprovar, discutir e melhorar as propostas do Governo. Não vamos entrar nesse jogo do agora não falamos com este, nem vamos entra na lógica de, para aprovarmos com aquele partido, temos de abdicar do outro partido. Seria o contrário das palavras do Presidente da República”, reagiu o dirigente social-democrata.
Alexandre Poço frisou que, na sua intervenção, António José Seguro “acabou de dizer ao país, mas também aos partidos políticos, que é importante que deixem as nossas trincheiras e que exista a capacidade de falar uns com os outros”.

Seguro pede “soluções duradouras” e o fim da “cultura de trincheiras”
O Presidente da República pediu hoje uma nova cultura política de compromissos interpartidários para várias legislaturas, defendeu a importância da estabilidade política e saudou a aproximação entre Governo PSD/CDS-PP e PS sobre o Orçamento do Estado.
Lusa | 11:51 – 05/10/2026