“A Casa da Mariquinhas”, de Silva Tavares e Alfredo Marceneiro, foi gravado por este fadista em 1961, embora as suas origens remontem a 1913. Retomado desde então, tem sido glosado por diferentes poetas e interpretado por vários fadistas, de Amália Rodrigues a Gisela João, que em 2013 revisitou “(A nova) Casa da Mariquinhas” com Capicua, numa abordagem da crise económica, e a ele regressou dez anos mais tarde, em plena crise habitacional, também com Capicua, para fazer “O Hostel da Mariquinhas”, num país que é cada vez mais “p’ró turista modernaço”.
Argumenta o olisipógrafo que este fado resume “o que foi a evolução e o espírito desta típica canção na cidade onde nasceu”.
“A Casa da Mariquinhas”, que conheceu diferentes versos, é “um fado que foi dez fados diferentes”, defende o investigador.
Nas suas muitas versões, “A Casa da Mariquinhas” deu de “beber à dor”, por Amália, e “à alegria”, por Hermínia Silva, esteve em leilão, como notaram Fernando Maurício e Francisco Martinho, teve “as janelas tapadas com tijolos”, durante a intervenção da ‘troika’, e agora verifica que “só é pena o português não ganhar para o T3”, com Gisela João e Capicua.
“A cada versão corresponde uma época não só da história deste fado, como também na História do fado e na História de Lisboa”, afirma o autor, realçando que o género musical “ajudou a eternizar uma cidade única”.
Em “Lisboa Fadista”, o investigador aborda as origens do fado: a tese do lundum afro-brasileiro, a do romanceiro nacional, e a tese árabe, que reconhece não ser a mais sustentada e defendida, mas cita as investigações recentes de Adalberto Alves, a opinião de Teófilo Braga (1843-1924) e de Amália que aludiu às influências árabes. Para Sérgio de Carvalho, esta é “uma tese a não ignorar”.
Na sua obra, o olisipógrafo refere o ambiente das tabernas em Lisboa, cujo número aumentou no século XIX, mas que remontam ao século XVI, quando se registaram “300 ‘tavernas’ na cidade, que consumiam mais de 70 pipas por dia”.
O fado tem o seu desenvolvimento na Lisboa oitocentista, nomeadamente nas tabernas “onde se tangia a guitarra e se cantava um fadinho”, mas também em alguns salões aristocráticos, apesar das críticas. O fado era “olhado de viés”, referenciado entre a marginalidade e o fadista, sempre munido de uma faca.
O investigador aponta a primeira metade do século XIX para o surgimento do “fado tal como o conhecemos”, “num ambiente onde medra a prostituição, alguma delinquência e uma miséria mal oculta”, um “ambiente de ‘bas-fond’ em alguns bairros lisboetas”.
É neste século que o fado encontra o seu “mito fundador”, a cantadeira Maria Severa (1820-1846) que teve uma relação amorosa com o 13.º conde de Vimioso, defensor da causa liberal. O breve romance espelha o ambiente da época, “uma mescla popular e fidalga, de toureiros e fadistas que esperam touros, que cantam e se vão divertir nas hortas e tabernas”.
A figura da Severa inspirou o escritor Júlio Dantas que romanceou a vida da fadista, moradora, com a mãe, na Rua Suja, atual rua do Capelão, à Mouraria, em Lisboa.
O fado não escapou a “críticas violentas”, em que “se nota o preconceito de uma certa intelectualidade ao género”, mas o fado das tabernas começa a ser cantado e apreciado em associações de classe como a Fraternidade Operária e A Voz do Operário, tendo colaborado na consciencialização do operariado, como pretendiam os sindicatos e associações de classe.
Entre finais do século XIX e princípios do seguinte, “a afirmação do fado é crescente”, à qual a emergência das gravações sonoras veio dar maior impulso, embora as vozes críticas sempre se tenham ouvido, como as do médico e escritor Samuel Maia, o engenheiro, crítico de arte e professor António Arroio e o escritor Albino Forjaz Sampaio.
Apesar das críticas, o fado foi sendo cada vez mais apreciado, até ser classificado como Património Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), um “lento processo de consagração como género ‘legítimo'”, percurso “lento e gradual, não isento de dificuldades, de censura(s) e de preconceitos e avanços e de superações, que levará o fado do ‘bas-fond’ da cidade ao palco global da chamada ‘world music'”.
Na sua obra, Sérgio Luís de Carvalho aborda ainda a atualidade, após a “instauração da Democracia”, em que o fado “atravessou um profícuo processo de renovação”, diversificando-o e sedimentando “novos moldes musicais e artísticos”.
Sérgio Luís de Carvalho tem dedicado a sua investigação a Lisboa, tendo publicado, entre outras, obras como “Lisboa Maldita” (2023), “Lisboa Nazi” (2022), “Lisboa Árabe”(2022) e “Lisboa Judaica” (2021).
O romance “Anno Domini 1348”, do escritor e investigador, valeu-lhe o Prémio Ferreira de Castro.
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