Mais de uma semana após a chegada da tempestade Kristin, na semana passada, as equipas de reconstrução multiplicam-se nas ruas numa “luta contra o tempo e contra o mau tempo”, provocado agora pela tempestade Leonardo.
Os pedidos de ajuda que chegam à Câmara Municipal de Pombal não param. Artur Gaspar é o técnico da autarquia responsável por acompanhar os arranjos das casas de famílias vulneráveis e tem uma lista interminável. Desde terça-feira, passou a contar também com os bombeiros e funcionários da Câmara Municipal de Oeiras (CMO).
À Lusa, Artur Gaspar disse que “todo o auxilio é bem-vindo quando se olha para a destruição nas 17 freguesias espalhadas por 600 quilómetros quadrados”.
Recuperar o telhado da casa de Manuel Antunes em Cardiais, um local na freguesia de Vila Câ, foi uma das missões atribuídas a uma das equipas de Oeiras. Quando os bombeiros e funcionários da autarquia chegaram, não encontraram Manuel. Há vários dias que deixou a sua casa.
As paredes resistiram ao mau tempo da noite de 28 de janeiro, mas parte do telhado voou e, pouco depois, começou a chover no quarto, em cima da cama. “Ele acabou a noite a dormir no sofá da sala protegido por um plástico”, contou a irmã Olívia Antunes, entre lágrimas.
Olívia acolheu Manuel na manhã de dia 28, mas o estado de saúde debilitado do irmão agravou-se e o homem de 67 anos teve de ser internado no Hospital de Pombal.
A casa abarracada de Manuel há muito que deixou de ter condições de habitabilidade. Com as tempestades, a situação agravou-se.
Hoje, quando Olívia abriu a porta de casa, saiu um cheiro nauseabundo vindo do frigorifico cheio de comida apodrecida, porque deixou de haver energia. O chão sujo está agora inundado, porque as vasilhas deixadas no chão para apanhar a chuva estão a transbordar. No quarto, uma lona preta cobre a cama para proteger da chuva que passa pelo telhado esventrado.
Enquanto Olívia analisa o estado da casa, do lado de fora, a equipa de três bombeiros e quatro funcionários da CMO tentam colocar as telhas arrancadas há mais de uma semana pela tempestade Kristin.
Olívia também perdeu algumas telhas de sua casa, mas disse à Lusa que não pediu ajuda porque “não dá para acudir a todos e é melhor começar pelos que mais precisam”. Além disso, o filho Ricardo largou o trabalho no Luxemburgo para vir ajudar.
“Está chover dentro de casa e ainda tentámos ir ao telhado arranjar as telhas partidas, mas o meu marido escorregou e desistimos, até porque já morreu muita gente”, disse, reconhecendo que as notícias desmobilizaram a família.
Em Cardiais, foram vários os imigrantes que regressaram a casa para tentar ajudar as famílias, mas perceberam que é muito perigoso. Mário Lopes deixou o trabalho em França para ajudar a avó, que mora em frente a Olívia.
“Só costumo vir no verão e no Natal, mas agora tinha que vir porque isto é tudo o que eu tenho. E a minha avó não pode dormir em casa, porque está tudo molhado, até o colchão”, contou à Lusa Mário Lopes, que aguarda pela chegada de ajuda.
“Estamos aqui numa luta contra o tempo e contra o mau tempo”, acrescentou Vitor Silva, o coordenador da equipa que veio do sul para ajudar a reconstruir o centro do país.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que afetou mais as regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
O Governo decretou situação de calamidade até domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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