O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, admitiu, esta quarta-feira, que as suas palavras “não foram felizes”, quando sugeriu que as pessoas afetadas pelas tempestades usassem o salário do mês anterior para “suprir necessidades”, enquanto não chegava o apoio do Governo.
“Se as pessoas sentiram das minhas palavras, interpretaram das minhas palavras, falta de sensibilidade, é porque as palavras não foram felizes”, admitiu. “Não foram as palavras adequadas, porque falta de sensibilidade é mesmo o oposto do que se passa comigo”, garantiu o governante, em entrevista à Grande Entrevista da RTP.
Castro Almeida recordou que esteve nos locais afetados e que falou com “muita gente que está absolutamente angustiada”. “E percebi – olhei-lhes nos olhos – e percebi a angústia em que estão, o sofrimento enorme, a falta de perspetiva de futuro, o desespero mesmo nalguns casos.”
“Eu vi isto no terreno. Portanto, tudo o que eu não posso ter é insensibilidade em face disto. Mas se as pessoas interpretaram que houve insensibilidade da minha parte é porque as minhas palavras não foram felizes”, concluiu.
O governante explicou que o que quis foi “pedir a compreensão das pessoas para algum tempo que é necessário até que cheguem os apoios”. Castro Almeida notou que o apoio extraordinário precisa de regras, práticas e até softwares novos, o que leva “algum tempo para operacionalizar”. Contudo, garantiu que o dinheiro vai chegar à conta das pessoas afetadas “antes do final de fevereiro” – e, em princípio, antes do próximo ordenado.
Quem necessita poderá fazer o pedido através de uma plataforma eletrónica, que será disponibilizada ou nas respectivas câmaras municipais, ou juntas de freguesia, onde o formulário será impresso, preenchido à mão e apreciado pela entidade competente.
Regressando ao tema da comunicação – que tem valido várias críticas a diferentes membros do Governo durante esta calamidade – Castro Almeida considerou normal que, por vezes, “há erros e há falhas”.
“Quem está na política tem de saber comunicar mas, às vezes, as coisas não correm exatamente como nós queremos”, assumiu. Mas “para quem está num órgão executivo, como é o Governo, o mais importante – e onde eu gostaria de ser avaliado – é pela ação, pelos resultados”.
“De resto, a gente cá se há-de entender e havemos de nos fazer compreender, ou à primeira ou à segunda, havemos de nos entender”, afirmou.
E acrescentou: “O que interessa é resolver problemas e que as pessoas vejam no terreno que haja soluções. Garanto que está a ser feito tudo para resolver os problemas.”
E, como exemplo, deu o caso do restabelecimento da rede elétrica que, uma semana depois, ainda está sem chegar a mais de 70 mil pessoas.
Apesar de não ser diretamente um feito do Governo, Castro Almeida fez questão de realçar o trabalho que está a ser realizado pela E-Redes: “Está com duas mil pessoas afetas a esta operação. Está gente a trabalhar vinda de Espanha, de França, veio agora gente da Irlanda para acelerar esta operação, porque agora é muito difícil o que falta fazer.”
Os casos mais complicados, continuou o ministro, são os postes que se encontravam “nos meios dos matos” em terrenos que, agora, devido à depressão Leonardo, “estão alagados”, impedindo as máquinas de lá chegar.
“Para quem está em casa sem luz isto é um desespero. Agora o que quero dizer às pessoas é que está a ser feito tudo o que é possível”, reiterou.
Ao todo, o prejuízo causado pela tempestade que se abateu sobre o país é “superior a quatro mil milhões de euros” – um valor que nem sequer tem em conta os chamados “custos indiretos”.
Por exemplo, “uma empresa que está em Leiria e fabrica peças para uma outra empresa” que nem sequer está numa zona afetada vai afetar a produção desta última. Muitas das fábricas nas zonas afetadas ficaram danificadas, senão completamente destruídas, o que terá um efeito em cadeia.
“Do ponto de vista da economia, vai ser um abalo muito relevante”, afirmou o ministro, acrescentando que há “muita gente [vai] ficar sem trabalho”.
Nestes casos, recordou o governante, o Executivo aprovou um regime de lay-off em que “o salário que entra na conta dos trabalhadores vai ser exatamente o mesmo” até ao limite de “três salários mínimos”. Ou seja, “até 2.760 euros”. Destes, 80% serão pagos pela Segurança Social e outros 20% pela empresa empregadora.
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